Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos
sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não
podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de
tudo,
esta solidão de
todos
Agora
não resta de
mim
o que seja
meu
e quando
tento
o magro
invento de um sonho
todo o inferno
me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo,
eu sei
Ainda assim,
escrevo
Pergunta-me
se ainda és o
meu fogo
se acendes
ainda
o minuto de
cinza
se despertas
a ave
magoada
que se queda
na árvore do
meu sangue
Pergunta-me
se o vento
não traz nada
se o vento
tudo arrasta
se na
quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel
de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei
a encontrar
de todas as
vezes que me detive
junto das pontes
enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita
dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias
pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha
rasgada
na minha mão
descrente
Qualquer coisa
pergunta-me
qualquer coisa
uma tolice
um mistério
indecifrável
simplesmente
para que eu
saiba
que queres
ainda saber
para que mesmo
sem te responder
saibas o que te
quero dizer
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara
ter
em outros leitos
despertaram
Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se
morre
e para um
outro fruto
me tentar
seiva ascendendo
porque perdi a
audácia
do meu
próprio destino
soltei ânsia
do meu
próprio delírio
e agora
sinto
tudo o que os
outros sentem
sofro do que
eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na
vida
que deles
desertou
ofereço o mar
que em mim se
abre
à viagem mil
vezes adiada
De quando em quando
me perco
na procura a
raiz do orvalho
e se de mim
me desencontro
foi porque de
todos os homens
se tornaram
todas as coisas
como se todas
elas fossem
o eco as
mãos
a casa dos
gestos
como se todas
as coisas
me olhassem
com os olhos
de todos os homens
Assim me debruço
na janela do
poema
escolho a minha
própria neblina
e permito-me
ouvir
o leve
respirar dos objectos
sepultados em
silêncio
e eu invento
o que escrevo
escrevendo para me
inventar
e tudo me
adormece
porque tudo
desperta
a secreta
voz da infância
Amam-me demasiado
as cosias de
que me lembro
e eu
entrego-me
como se me
furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que
faço nascer
dos versos
a que
livremente me condeno
Nocturnamente te construo
para que sejas
palavra do meu corpo
Peito que em mim respira
olhar em que me
despojo
na rouquidão
da tua carne
me inicio
me anuncio
e me
denuncio
Sabes agora para o que venho
e por isso
me desconheces
Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que
com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num
instante
eleva-se o meu coração
sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino
da inconstância
para alojar a
palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de
ser
permuto de
existência
surpreendo os homens
na sua
secreta obscuridade
transito por
quartos
de cortinados
desbotados
e nas
calcinadas mãos
que esculpiram
o mundo
estremeço como quem
desabotoa
a primeira
nudez de uma mulher
Estou
e num breve
instante
sinto tudo
sinto-me tudo
Deito-me no meu corpo
e despeço-me
de mim
para me
encontrar
no próximo
olhar
Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à
exaustão
Nada me alimenta
porque sou feito
de todas as coisas
e adormeço
onde tombam a luz e a poeira
A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios
estiverem já mortos
Educadamente mortos
Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e
o fruto
nos unimos
num mesmo
corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a
imperceptível
fronteira do meu
corpo
e sangro
nos teus
flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra
que desnudo
Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste
a despedida
e eu que
habitara lugares secretos
e me
embriagara com os teus gestos
recolhi as
palavras vagabundas
como a
tempestade que engole os barcos
porque ama os
pescadores
Impossível separarmo-nos
agora que
gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito
parto do tempo
Por isso te toco
no grão e na
erva
e na poeira
da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face
de sal
E quando o mundo suspira
exausto
e desfila
entre mercados e ruas
eu escuto
sempre a voz que é tua
e que dos
lábios
se desprende
e se recolhe
Ali onde se embriagam
os corpos dos
amantes
o te ventre aceitou
a gota inicial
e um novo
habitante
enroscou-se no
segredo da tua carne
Nesse lugar
encostámos os nossos
lábios
à funda
circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava
ser todos os homens
comandar o sentido
das coisas
afogar poentes
despertar séculos à
frente
e
desenterrar o céu
para com ele
cobrir
os teus seios
de neve
Magoa-me a saudade
do
sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante
lembrança
do teu
vestido
caindo aos nossos
pés
Magoa-me a saudade
do tempo em
que te habitava
como o sal
ocupa o mar
como a luz
recolhendo-se
nas pupilas
desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem
remédio
tua virtude,
tua carência
eu
que longe de
ti sou fraco
eu
que já fui água,
seiva vegetal
sou agora gota
trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu
amor,
a
transparência da água
dá ocupação à
minha ternura vadia
mergulha os teus
dedos
no feitiço do
meu peito
e espanta na
gruta funda de mim
os animais
que atormentam o meu sono
Entre o desejo de ser
e o receio
de parecer
o tormento
da hora cindida
Na desordem do sangue
a aventura
de sermos nós
restitui-nos ao
ser
que fazemos de
conta que somos
Foi para ti
que desfolhei
a chuva
para ti soltei
o perfume da terra
toquei no nada
e para ti
foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me
faltaram
no minuto em
que falhei
o sabor do
sempre
Para ti dei voz
às minhas
mãos
abri os gomos
do tempo
assaltei o mundo
e pensei que
tudo estava em nós
nesse doce
engano
de tudo
sermos donos
sem nada
termos
simplesmente
porque era de noite
e não
dormíamos
eu descia em
teu peito
para me
procurar
e antes que
a escuridão
nos cingisse a
cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
olhar
amando de uma só
vida
Quero ver
o fundo do
mar
esse lugar
de onde se
desprendem as ondas
e se
arrancam
os olhos aos
corais
e onde a
morte beija
o lívido
rosto dos afogados
Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz
se revele
e nesse
mundo
descubra a que
mundo pertenço
A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de
nós
imigrou a ave a
inquietação
Serve-nos a vida
mas não nos
chega:
somos resina
de um tronco
golpeado
para a luz nos
abrimos
nos lábios
dessa incurável
ferida
Na suprema felicidade
existe uma morte
silenciada
cego
de ser raiz
imóvel
de me
ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha
tombada do tempo
Estas pedras
sonham ser casa
sei
porque falo
a língua do
chão
nascida
na véspera de
mim
minha voz
ficou cativa do
mundo,
pegada nas areias
do Índico
agora,
ouço em mim
o sotaque da
terra
e choro
com as pedras
a demora de
subirem ao sol
1. Deixei o sol
na praia de Quissico
De bruços
sobre o Verão
eu deixei o
Sol
na extensão
do tempo
Molhando, quase líquido,
o dia
afundava
nas fundas águas
do Índico
A terra
se via estar
nua
lembrando, distante,
seu parto de
carne e lua
2. Não o pássaro: era o céu
que voava
O ombro da terra
amparava o dia
A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso
suicida
um minhas
ocultas asas
Pequeninura do morto e do vivo
O morto
abre a terra:
encontra um ventre
O vivo
abre a terra:
descobre um seio
* * *